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Como nos podemos preparar para um ano tão incerto como 2017?

Sábado, 03.12.16

 

Haverá muitas pessoas por esse mundo fora a desejar que o novo ano seja anunciado o mais depressa possível. Para muitos 2016 trouxe desgostos e preocupações. Cidades sitiadas, terramotos, atentados, o Brexit, Trump. Foi um ano estranho, em que o inesperado se revelou, como nos filmes de terror.

No nosso cantinho, na ponta oeste da Europa, o ano foi muito melhor do que 2015, de tal modo melhor que nem tem comparação. Depois de um pesadelo de 4 anos e da visão desmoralizadora de não ter forma de ver o seu fim, abriu-se uma janela, refrescou-se o ar, os rostos iluminaram-se, foi o nosso golpe de sorte.

Portugal foi um dos poucos exemplos de um bom 2016. Digamos que 2016 foi para nós um intervalo entre o filme de terror e o filme de acção que aí vem. 2016 foi uma espécie de comédia romântica. Pela primeira vez olhámos para nós e achámos que ainda estávamos em forma, que a nossa casa era um jardim, que amanhã seria melhor do que hoje. 

Para mim tem sido uma experiência inédita: gostar do governo e do Presidente. Nunca me aconteceu ver no poder um governo e um Presidente que respeitam os valores da democracia e a cultura da colaboração.

É por isso que vejo aproximar-se 2017 com a apreensão que se tem nos filmes de suspense de Hitchcock: já vemos a trama formar-se, os actores já foram escolhidos, as personagens prometem surpreender-nos e até escandalizar-nos. Os temas estão lá todos: intriga internacional, vertigem, a corda, os pássaros!

A Europa está naquela fase em que tanto pode segurar-se e escolher outras soluções de colaboração entre países e comunidades, como pode perder tudo e cada um tentar sobreviver ao desmembramento da forma menos dolorosa possível.

Os States vão atravessar um período estranho: o contraste entre a liberdade adquirida e a nova caça às bruxas, entre a comunicação ágil das redes sociais e a propaganda e desinformação oficial, entre a diversidade própria de comunidades sofisticadas e democráticas e a massificação e divisão próprias de formas de organização ditatorial, entre a cultura do séc. XXI e a formatação mental do séc. XX.

O resto do planeta também deve estar em suspense. Uns a esfregar as mãos, outros a afiar o dente, muitos muitíssimos a dar as mãos. 

 

 

Porque escolhi a corda, precisamente a corda, para tentar responder à pergunta "como nos podemos preparar para um ano tão incerto como 2017?"

Pela destreza única de Hitchcock em nos revelar como certas ideologias fascizóides podem insinuar-se subrepticiamente nas sociedades modernas, mesmo naquelas que consideramos culturalmente sofisticadas e preparadas para descodificar e desmontar a sua ideia base, os seus pressupostos.

É isto que, a meu ver, precisamos de pensar: valorizar, nos programas educativos, nos jogos interactivos, nas séries de culto, formas de descodificar e desmontar as ideologias da morte e da destruição, os "falsos deuses" segundo Arno Gruen.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:26

Votar em equipas e projectos é mais favorável ao sistema democrático

Domingo, 27.11.16

 

 

 

A consciência de si próprio como membro de uma comunidade, e a responsabilidade partilhada, são capacidades próprias da maturidade.

Uma pessoa autónoma participa e colabora em projectos em que acredita sem a expectativa da aprovação social. Ao aceitar os seus trunfos e as suas fragilidades adquiriu a confiança em si própria para agir de forma sensata. E também por isso não é influenciável, pois observa, informa-se e analisa cada situação de forma objectiva.

Arno Gruen aponta para uma pequena parte da população geral com estas características. A maior fatia da população geral revela uma tendência para o conformismo, podendo inclinar-se para o lado da autonomia, isto é, para seguir exemplos favoráveis à lógica ganha-ganha e à cultura da colaboração e da partilha, ou para o lado da psicopatia, isto é, para seguir os "falsos deuses" e a sua lógica do ganha-perde, ou seja, a cultura da competição, da megalomania e do desprezo pelos mais frágeis, tratados como perdedores.

 

Voltando às eleições americanas, a minha perplexidade mantém-se. Metade dos eleitores americanos entregou o poder de muitas decisões determinantes para o seu futuro, a uma pessoa que verbalizou o que quis sem filtros de qualquer espécie: respeito pelas pessoas, respeito pela democracia, respeito pela própria história da América, pela sua cultura, pelas suas diversas comunidades.

O perfil de muitos políticos e pessoas influentes tende a ser, como Arno Gruen analisou, auto-centrado, eficaz na obtenção do poder, sem empatia e sem escrúpulos. Alguém que já identificaram assim à primeira vista?

Já repararam no risco que corremos quando estas pessoas têm carta branca nas grandes decisões colectivas?


É por isso que, a meu ver, o sistema democrático terá de se aperfeiçoar e proteger, definindo novas regras. E uma delas terá a ver necessariamente com a exigência da apresentação, aos potenciais eleitores, de uma equipa e de um projecto.

O projecto terá de funcionar como um contrato entre a equipa e os eleitores e não, como temos observado, apenas marketing.

 

Um exemplo de uma equipa que tenho observado é a da solução governativa em Portugal: embora o governo seja de um partido, é apoiado na Assembleia por dois outros partidos. Trata-se, pois, da gestão política de uma equipa.

Uma gestão política com esta definição exige negociação, o que nos dá garantias de um equilíbrio e controle de excessos, mas enfrenta alguns desafios. Um deles, é a mania da medição da popularidade relativa de cada partido através das sondagens.

É claro que se a responsabilidade fosse avaliada pelas sondagens, o PCP teria aumentado 2 pontos, o BE 1 ponto e o PS teria ido buscar os seus pontos apenas ao PSD, ao CDS e à abstenção.

Só um à parte sobre esta sondagem: é interessante verificar que a prestação responsável do deputado do PAN foi reconhecida pelos inquiridos.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:03

A autonomia do adulto

Terça-feira, 22.05.12

 

Inspirada no post A estranha leveza de ser libertário, de Ricardo Lima, n' O Insurgente, volto aqui para desenvolver um pouco o tema da autonomia do adulto.

 

A autonomia do adulto já foi definida por Arno Gruen em A Loucura da Normalidade, A Traição do Eu e Falsos Deuses.

Também Alberoni desenvolveu o tema.

Uma coisa essencial, portanto. E cada vez mais essencial numa época em que é tão desvalorizada.

 

Há uns tempos tinha colocado a navegar num rio, esta relação dos termos autonomia individual-dependência grupal através do filme The Fontainhead. Porque este tema não se esgota e ainda acende debates, por ele voltei a esse rio que ainda chama por mim.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:49

Empatia e compaixão, a base da autonomia

Domingo, 14.08.11

 

Arno Gruen, psicanalista que tem estudado os fenómenos de violência na sociedade actual, cita n’ A Traição do Eu Ortega e Gasset, que só acreditava em náufragos, para melhor nos esclarecer que só o indivíduo capaz de sentir a dor, a sua e a do outro, e sentir o desamparo, é capaz de empatia e compaixão, viver afectos genuínos, respeitar-se a si e aos outros.

Agora analisemos a questão nesta perspectiva: estão a ver um indivíduo com estas características adaptar-se bem a normas e a práticas organizacionais que se regem pela lógica do poder, alheias às pessoas, à sua vida, às suas necessidades, e quantas vezes, contra as suas vidas e necessidades vitais? Quantos episódios dramáticos já não ouvimos sobre indivíduos que, no limite, preferiram morrer a colaborar na destruição de outras vidas? São esses os náufragos de Ortega e Gasset: porque passaram pela dor do desamparo, sentem a dor de outros como se fosse sua (empatia), encaram a violência na perspectiva da vítima e a vítima é uma vida, tem uma história e um nome, é carne e ossos, sentimentos, emoções. Se lhes é pedido ou exigido que esqueçam esse pormenor – e a maioria das organizações rege-se por questões que desprezam esta realidade humana -, hesita, questiona-se, reflecte, mas não obedece de forma acrítica, fria, mecânica. A vida, o respeito pela vida, está acima de qualquer outro objectivo na sua escala de valores.

As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.   

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:01

Coisas simples: as memórias felizes

Sexta-feira, 12.03.10

 

Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.

Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...

Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.

 

Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...

Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...

Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...

Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...

 

Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...

 

Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.

Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.

 

Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.

Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.

 

Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...

Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:09








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